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quarta-feira, 18 de abril de 2012


Feijões Saltadores.

Naquele dia não estava bem. O ar sobre o Novo México era muito seco, e minhas narinas começaram a ressecar com um pouco de sangramento. Faltavam algumas milhas para chegar em Albuquerque Dirigia numa estrada deserta dentro de uma paisagem deserta…., o que mais esperar, além de um bar num lugar esquecido pelo Tempo. Meus devaneios logo me despertaram para a realidade, ao perceber que mais a frente havia um desses bares. Estacionei a caminhonete, e esperei um pouco a poeira baixar para abrir a porta. Agora sem o barulho do motor dava para sentir o silêncio da amplidão do inferno.

De frente para o bar, hesitei um pouco a continuar adiante. Sob meus pés havia uma escada de tábuas bem surrada pelas intempéries de apenas três degraus, que pareciam me levar a um mundo misterioso e sombrio.
A porta estava entreaberta, onde pela fresta via-se apenas a escuridão, mas mesmo assim, decidi entrar, sabendo intuitivamente que algo de muito estranho iria acontecer, pois naquela noite, um sonho me levou a um futuro cheio de probabilidades, e tudo aquilo agora me parecia bem familiar.
Pouco a pouco em que minha visão ia se acostumando com o ambiente escuro, vi um balcão com alguns copos de whisk vazios, e uma toalha surrada e encardida, onde o barman esfregava freneticamente um desses copos, a olhar fixo para mim, sem disser palavras de boas vindas.
Olhei para ele também, esbocei um sorriso, demonstrando satisfação e que tudo estava perfeitamente normal.


-Você tem um café expresso para me servir? Tomei a iniciativa tentando ser cordial.
- O café que a gente serve aqui é com borra, e foi feito agora pouco. Deixe descansar um pouco para depois beber. Não é dos melhores, mas aqui ele é bem conhecido. Disse o barman.
- Tudo bem, mas fiquei curioso. Posso saber o por que?
- Beba e saberá. Voltando a esfregar os copos e não dando muita importância a minha presença.
Esperei a borra do café assentar ao fundo, e ao beber, senti algo sólido indo para minha garganta, e quase que engoli. Cuspi o objeto para dentro da xícara, e pergunte o que era aquilo.
- Ora! Veja com seus próprios olhos, disse o barman.
Aquilo estava misturado com a borra, mas ao tirar com os dedos, chacoalhei, ouvindo um som.
- Mas isso é um guizo de cascavel!
- Não fique me olhando assim com esses olhos arregalados. Posso lhe garantir que o veneno dela não está ai.
- Terei que pagar por isso?
- Todos têm um preço a pagar quando entram nesse bar. O barman virou as costas, e foi para cozinha, me deixando sozinho, praguejando e inconformado com a hospitalidade.
 
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Durante o incidente, passou quase desapercebido a presença de um velho índio a uns quatro pés distante de mim, debruçado sobre o balcão. Creio que esperou que eu me acalmasse para mostrar algo, e então tirou algo de seu bolso, uns feijões e pôs sobre o balcão.
-Olhe bem para eles : Disse o velho índio.
Olhei para o índio, para os feijões, e percebi que aquele não era realmente o meu dia, e disse:
-Quando a gente não está bem, parece que tudo o que acontece ao redor conspira contra o universo.
-Se não olhar fixamente para esses feijões, nada irá compreender o que se passa com o universo.
Então olhei mais uma vez para os feijões, e der repente começaram a saltar.
- Ora, isso são feijões saltitantes. Quanto irá me cobrar por esse truque barato?
-Digamos que uma parcela de sua alma.
-Pois muito bem! Você está diante de uma pessoa um tanto cética. Portanto não tenho alma, e nesse caso nada lhe devo. Certo?
Disse aquilo mais por raiva do que realmente sinto em relação à vida, mas achei boa a ocasião para retrucar.
Ele simplesmente balançou a cabeça, e disse que eu estava mentido para mim mesmo, e não para ele.
Voltou a tornar o rosto para frente, olhando para o nada, coçou as costas, e simplesmente esperou, que eu voltasse a olhar mais uma vez para os feijões.
Bom……., foi exatamente o que fiz.

Notei que eles pairavam por algumas frações de segundo no ar. Acredite que fosse o efeito daquele maldito café, mas ai, fiquei atônito, e hipnotizado com os movimentos cada vez mais lentos desse feijões dançando em minha frente. Pensei estar alucinando, o mundo real estava ficando distante, e penetrara em um outro mundo.
Ouvia um som distante vindo do fim do mundo, mas era somente o velho índio pondo-se a cantar. Sua voz orquestrava os feijões, e esses por sua vez iam adquirindo cores, até se posicionar em círculo, como uma ciranda, chegando a flutuar umas oito polegadas de altura em relação ao balcão. O índio fez um breve silêncio e bateu levemente sobre o balcão.
Tudo que estava em sua volta, retornou a seu ritmo, e os feijões caíram sobre o balcão na mesma posição quando iniciaram a levitar.
- Você só pode ser uma espécie de xamã ilusionista!
- Não, cara pálida. Foi o mundo desesperado que quis se mostra a você. Eu sou apenas um mensageiro.
- Tudo bem. Pensei em sair o mais rápido possível daquela espelunca, mas sem antes deixar uns míseros cents pelo café.
Voltei a caminhonete, liguei o contato e pisei fundo no acelerador, tentando estar o mais distante possível daquele estranho bar.

segunda-feira, 2 de abril de 2012





Alquimia da Luz.

O que transmuta a vida em sortilégio?
Um ponto equidistante entre o pensamento e a noite,
Entre as trevas e a matilha de lobos em Lua cheia.
O fio que tece a vida, estanca o vôo em pleno movimento.
Apenas o frio traz as montanhas pra dentro do cobertor.
A luz seduz as manhas, e assim se fez a noite.
A distancia dos lábios se perde no orvalho, e seca as palavras.
Bocas e dentes, velas ao vento e o mar a buscar saudades.
Estrelas feitas de diamantes, da grandeza e dureza da realidade,
Fere os sentimentos de ilusão, a rasga o cetim que cobre a alma.
Todo mistério está contido na forma da maçã.
Cabe na palma da mão da mulher,o destino dos homens.
Sonhos talhados em madeira balsa, descansam nas areias da praia.
Não há mais tempo de acordar a noite, pois o brilho que seduz.....,
Jaz entre as montanhas no acaso das estações do Tempo.
Airton Parra